Escritor, cozinheiro de alma e explorador de dias comuns. Nasci em Kinshasa e hoje vivo em Almere, nos Países Baixos, onde encontrei a minha própria forma de viver com autenticidade.
A minha avó tinha uma cozinha pequena onde o cheiro de mandioca, amendoim e especiarias nunca desaparecia. Eu sentava no degrau da porta enquanto ela cozinhava para toda a família. Não era só comida. Era comunidade, riso, histórias contadas entre garfadas. Quando a família se mudou para a Europa, levei essa memória como um tesouro escondido no coração.
A adaptação foi dura. Bélgica primeiro, depois os Países Baixos. O clima frio, a língua nova, o ritmo diferente. Mas a cozinha continuou a ser o meu refúgio. Quando sentia falta de casa, cozinhava pratos da minha avó e por um instante o cheiro trazia-me de volta.
Durante quase vinte anos trabalhei em logística e depois em projectos criativos para marcas. Viajava muito, dormia pouco, comia rápido. Achava que estava a construir algo importante. Na verdade, estava apenas a passar pela vida sem a sentir.
Em 2020, depois de um período intenso de trabalho e uma sensação constante de vazio, parei. Literalmente. Fiquei em casa durante semanas sem agenda. Foi assustador no início. Depois comecei a cozinhar devagar, a caminhar sem destino e a escrever pequenas notas sobre o que via e sentia. Essas notas viraram este espaço.
Deixei Kinshasa com a família. A primeira coisa que notei foi o silêncio das ruas. Aprendi a encontrar calor na cozinha e nas caminhadas longas.
Fui a Portugal por trabalho e acabei a ficar mais tempo. O mar, a luz, a forma como as pessoas vivem o tempo — ensinou-me que existe outra maneira de estar no mundo.
Depois de esgotamento, larguei o ritmo louco. Comecei a cozinhar todos os dias, a caminhar nas florestas holandesas e a escrever sem objectivo de publicar. Foi a melhor decisão da minha vida.
Decidi partilhar as histórias que antes guardava só para mim. Não para ensinar. Apenas para registar o que me faz sentir vivo e autêntico.
A vida autêntica não é perfeita. É feita de pequenos momentos repetidos com atenção.
Cozinhar é a minha forma de contar histórias. Cada prato carrega memórias de quem me ensinou a viver.
Parar não é perder tempo. É o momento em que o mundo volta a fazer sentido.
Escrever é o meu jeito de agradecer. Cada texto é um obrigado ao que já vivi.
Se chegaste até aqui, obrigado. Espero que alguma destas palavras te faça parar por um instante e olhar à tua volta com mais carinho.